Cortes no porte-pago ameaçam alguns jornais da diáspora
A diversidade da imprensa da diáspora ficou patente no terceiro painel do congresso “Comunicação Social e os Portugueses no Mundo� alertaram
Phillipe Vieira
Os cortes no porte-pago, já anunciados pelo Governo, irão afectar os jornais das comunidades portuguesas impressos em Portugal e remetidos para o estrangeiro. O director da Gazeta Lusófona, Adelino Sá, avisa que caso tal medida vá avante fechará o seu jornal, mas fá-lo-á de “cabeça levantada�.
O assunto foi hoje, dia 17 de Novembro, levantado em Braga, no congresso “Comunicação Social das Comunidades Portuguesas”, organizado pela associação Rosa Azul, em parceria com o Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho (UM) e com a Câmara Municipal de Baião. O director da Gazeta Lusófona (SuÃça) foi incisivo nas crÃticas ao modo como a governação central trata os emigrantes.
A Gazeta Lusófona substitui várias vezes o Governo no papel de disseminação da informação de particular importância para os portugueses emigrados, sustentou. Mas “as pessoas [residentes em Portugal] não conhecem� a realidade dos órgãos de comunicação social da diáspora: “Não estão por dentro daquilo que fazemos�.
Aproveitando a entrada do Secretário de Estado das Comunidades, António Braga, que iria encerrar o primeiro dia do congresso, Adelino Sá criticou os cortes anunciados no porte-pago (o Estado comparticipa as despesas da distribuição por correio de jornais impressos em Portugal e enviados para o estrangeiro). No seu entender, é “lamentável� que o Governo nunca tenha encomendado um estudo de análise da importância que os jornais das comunidades portuguesas têm.
Não se sabe ao certo quantos jornais – como o Gazeta Lusófona, que é escrito na SuÃça, impresso em Portugal e remetido para a SuÃça – serão afectados por esta medida. Orgulhoso do seu papel, enquanto responsável por um jornal de parcos meios, Adelino Sá avisou que se o corte se concretizar no inÃcio de 2007, como está previsto, poderá fechar o Gazeta. Mas, frisou, “de cabeça levantadaâ€?.
Quando nasceu, em 1970, no seio da associação “Amizades Portugal-Luxemburgoâ€?, o Contacto também era impresso em Portugal e “essencialmente distribuÃdo por voluntáriosâ€? no Luxemburgo, explicou o director, José LuÃs Correia. Em 1987, passou para as mãos do grupo Saint-Paul, o maior e mais antigo grupo media do Luxemburgo. Hoje “é lido 11 por cento da população total, o que faz dele o 5° tÃtulo mais lido entre os semanários luxemburgueses e o 6° se forem considerados no seu conjunto os tÃtulos semanais e diáriosâ€?.
Na opinião de José LuÃs Correia, o sucesso do semanário deve-se à sua ligação à informação prática referente ao quotidiano da população. “O Contacto dedica, actualmente, cerca de 80 por cento do seu espaço redacional a notÃcias do Luxemburgo, redigidas em portuguêsâ€?.O objectivo não é, pois, prestar informação sobre Portugal, área que José LuÃs Correia considera já coberta por órgão de comunicação social como a RTPI. É antes “favorecer a Europa dos cidadãos e contribuir para a integração da comunidade lusófona na sociedade luxemburguesaâ€?.
Uma lógica distinta da do Luso Jornal belga e do Luso Jornal França, ambos dirigidos por Carlos Pereira. Estas publicações, de distribuição gratuÃta, procuram, sobretudo, informar os portugueses residentes na Bélgica ou na França acerca das comunidades radicadas naqueles paÃses. Há uma busca permanente por protagonistas da comunidade e uma atenção especial à s polÃticas portuguesas de emigração.
Durante o congresso, Carlos Pereira contou que houve um aceso debate interno na hora de decidir em que lÃngua deveriam ser escritos os jornais que dirige. A equipa acabou por decidir editar em Português o noticiário que, eventualmente, interessa mais à primeira geração de portugueses e em Francês a que interessará mais aos luso-descendentes. Na esperança, ainda assim, dos luso-descendentes irem aproveitando para treinar um pouco Português.
A questão tem sido alvo de debate em vários órgãos de comunicação social existentes em paÃses onde há portugueses há muito instalados, como a França ou os Estados Unidos. Tudo porque os luso-descendentes tendem a perder a lÃngua de origem. O Correio de Venezuela (como o Contaco ou o Gazeta Lusófona) publica todos os seus conteúdos em Português. O semanário assume-se como um meio de preservação da lÃngua, da cultura e da identidade lusa.
Num congresso marcado pela presença de representantes de meios de comunicação social afectos a diferentes comunidades portuguesas, a participação da chefe de redacção do Correio de Venezuela, Délia Meneses, trouxe a experiência das parcerias com órgãos de comunicação de Portugal.
Délia Menezes sublinhou que o jornal nasceu amador e se profissionalizou ao aliar-se ao Diário de NotÃcias da Madeira. Sendo a Venezuela um paÃs de forte presença de madeirenses, a conjugação de esforços resulta numa dupla proximidade: os madeirenses residentes na Venezuela têm informação sobre a Madeira, os luso-venezuelanos residentes na Madeira têm informação sobre a Venezuela.
Segundo a mesma responsável, o Correio de Venezuela oferece notÃcias nacionais (Venezuela e Portugal) e notÃcias que dizem exclusivamente respeito à comunidade lusófona local, constituÃda por cerca de 500 mil portugueses. O jornal, que começou por ser mensal, passou para o formato quinzenal e agora apresenta-se como um semanário. O “sucessoâ€? da parceria com o DNM é tal que o diário sediado no Funchal pensa lançar em Caracas uma publicação local.
Foi este o painel que encerrou o primeiro dia de debates acerca da comunicação social e os portugueses no mundo. No seguimento do que foi sendo aventado nos debates anteriores, persistiu a ideia de uma falta de acompanhamento e ajuda por parte da Administração Central para com as diversas comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo.

